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Panorama Internacional sobre as Terapias Corporais

Autor: Márcia Helena de Oliveira CRP06/4674


Entre os dias 11 e 17 de outubro, realizou-se em São Paulo o 7o Congresso Internacional de Psicoterapia Corporal. Foi de fato um grande evento. Lá estavam representadas as principais escolas de Orgonomia do Brasil e do mundo.
Nessa oportunidade, pude rever antigos amigos, reatar os afetos e estreitar o intercâmbio. Desse reencontro, formamos um grupo de estudo, uma espécie de fórum permanente de discussão, exposição e debate da pesquisa em Orgonomia. Na primeira reunião, que ocorreu agora já no início de Novembro, não pudemos deixar de lembrar, as dificuldades iniciais para estudar, trabalhar e trabalhar-se terapeuticamente na abordagem reichiana. Não havia livros editados, nem traduções confiáveis.
Lembramos-nos ainda, da alegria que sentimos quando da vinda de Eva Reich (filha de W.Reich) ao Brasil, por volta de 1978/79, se não me falhe a memória. Nessa ocasião, conseguimos organizar um seminário sobre a prática clínica em Orgonomia e ainda completar nossa terapia na abordagem. Ainda hoje me lembro da competência, suavidade e amorosidade dessa grande terapeuta.
Felizmente hoje, o acesso à terapia, estudo e formação, já está bem mais fácil. Durante esses anos, assim como eu o fiz em Alagoas, outros colegas também migraram para outros estados do Brasil, e lá, qualificaram outros terapeutas.
Foi muito gratificante a troca de informação com os colegas do Brasil e mais interessante ainda com os companheiros de outras partes do mundo. Às vezes parecia que a comunicação se fazia além do verbo, talvez pela energia, pois nos comunicávamos em línguas que não conhecíamos bem, ou mesmo nada conhecíamos. E o mais interessante é que nos compreendíamos. Imaginem que até com os colegas da Grécia, nós nos comunicamos. Estavam também presentes, companheiros da Argentina, Venezuela, Espanha, França, Itália, Estados Unidos, Canadá, México, Noruega, Grécia, entre outros. Uma riqueza de conhecimento, descobertas técnicas, e troca de informação clínica.
O Espaço Wilhelm Reich de Alagoas e São Paulo também se fez representar. Apresentamos um seminário teórico/vivencial, com o título de Reorganização Organísmica pelo Movimento ? Uma contribuição técnica para a Orgonomia.
Vale dizer que esse trabalho será descrito com maiores detalhes, no livro de mesmo nome, que será lançado já no próximo ano.

Aí vai o primeiro trabalho que julgamos interessante trazer para o conhecimento dos nossos leitores:
?Sexualidade dos índios da região do Alto Rio Negro, Amazonas ? Interface possível com o pensamento reichiano?.
Trata-se de uma pesquisa de campo, realizada pela antropóloga Marta Azevedo, do I.S.A. (Instituto Sócio Ambiental), pelo psicólogo reichiano, Eugênio Marer , fundador do C.I.O. (Centro de Investigação Orgonômica), por Heloisa Lessa, (enfermeira obstetra, secretária executiva da REHUNA, Rede de Humanização do Nascimento e do Parto) e por Helio Barbin, médico da Associação Saúde sem Limites . Essa pesquisa foi financiada pela Fundação Mac Arthur, no âmbito de um projeto sobre saúde das mulheres indígenas.

Principais objetivos dessa pesquisa: Compreender as concepções próprias das mulheres indígenas a respeito de seu corpo, sexualidade e saúde reprodutiva e também fazer uma avaliação da sua saúde.
Uma das atividades incluiu o exame ginecológico às mulheres, com coleta do Papanicolau para detecção precoce do câncer de colo de útero e de mama e ainda a avaliação biofísica e orgonômica. Alguns homens também quiseram passar pela avaliação orgonômica e aí falaram sobre sua sexualidade.

Descrição da população pesquisada:
Esta população indígena, apresenta uma visão sexo positiva, com ausência do tabu da virgindade, aceitação e encorajamento da vida sexual na adolescência, controle da reprodução, mas não da sexualidade, partos naturais, rápidos e sem dor, ausência dos sintomas da menopausa etc. Aqui não existe a idéia da fidelidade. A sexualidade está ligada a ter e dar prazer e não a procriar.
Quando uma mulher se interessa por um homem ela simplesmente o convida para ter relações sexuais com ela, mesmo se ela estiver casada com outro homem. A mesma coisa acontece com o homem. Para eles, sexo e casamento são coisas diferentes: sexo é apenas para dar prazer e casamento é para procriar.
Também não existe limite de idade para se encerrar a atividade sexual. Mulheres de 80 anos continuam ativas. Na verdade são elas muitas vezes que iniciam os jovens índios.
Quando chega a hora do parto, a mulher se isola. ?Não dá pra parir com gente olhando?. Para elas parir é fisiológico. Não existe parteira. A mulher pari sozinha. Após o parto, nenhuma delas precisa refazer o períneo ou qualquer coisa desse tipo. Cada mulher tem em média seis filhos.
Após o nascimento da criança, tanto o pai como a mãe ficam de resguardo por seis meses. A idéia é que tanto a mãe como o pai, ambos tinham ficado grávidos.

Resultados encontrados:
Das 62 mulheres examinadas não foi encontrado nenhum tipo de problema ginecológico. Também não havia um caso sequer de câncer e, apesar da intensa vida sexual, nenhuma D.S.T. foi encontrada.


Nosso esclarecimento:
A importância desse estudo de campo para a comunidade reichiana, é a descoberta de que hoje, aqui no Brasil, existe uma comunidade indígena, que possui uma organização social com um funcionamento sexual que não adoece seus membros, à semelhança dos Trobriandeses, comunidade indígena estudada por Malinowiski, por volta de 1930.

Durante alguns anos, Bronislav Malinowvki, importante etnólogo inglês e amigo pessoal de Reich, estudou a vida sexual dos habitantes do arquipélogo Trobriand. Nessa comunidade, identificou-se uma vida sexual sem transtornos, cujo único objetivo seria a satisfação dos impulsos genitais por si mesmos. As crianças começavam muito cedo sua vida amorosa. Não eram freadas por nenhum tipo de autoridade. Podiam tocar-se e tocar as outras crianças e também os adultos. Com a idade, as relações iam naturalmente se tornando mais firmes e duradouras. Nessa comunidade, não se constatou qualquer tipo de perversão, criminalidade nem doenças.

Para nós reichianos, a importância das descobertas de Malinowski, é que elas acabaram por fundamentar, o que a prática clínica de Reich já havia constatado: O bloqueio da sexualidade natural adoece as pessoas. Portanto ... não existiriam biopatias em sociedades cuja sexualidade não tivesse qualquer outra finalidade que não fosse dar e receber prazer. Portanto o bloqueio ou desvio do impulso sexual natural adoece as pessoas física, emocional e moralmente.
Vale esclarecer que para Reich, adoecimento significa qualquer ação pensamento ou sentimento que não promova a vida. Entende-se aí todas as perversões (dentre elas a pedofilia, o sadismo, o exibicionismo), também os transtornos na potência sexual, (como a dificuldade eretiva, a ejaculação precoce, o vaginismo, a falta de ternura pelo parceiro no momento do ato sexual, e a dificuldade com o envolvimento amoroso.) E Reich vai mais além ainda, estendendo o conceito para as doenças sociais como o fascismo e o imperialismo, (responsáveis pelas guerras) bem como a histeria mística, promovida pelos movimentos religiosos quando retira do ser humano a capacidade para a condução da sua vida.

BIBLIOGRAFIA
Wilhelm Reich - La irrupcion de la moral sexual
Editorial homo sapiens
Buenos Aires ? Argentina

- A Revolução Sexual
Círculo do Livro - 1966

Psicologia de Massas do
Fascismo ? 2a edição
Martins Fontes ? 1988
WAD