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Influências que Atravessam Gerações

Autor: Marcia Oliveira - crp 06/4674


Nesse artigo, vamos refletir um pouco sobre algumas das possíveis conseqüências ou dificuldades para a vida adulta ao nível pessoal, relacional e/ou social, oriundas de inadequações ocorridas nas 5 etapas comentadas pela psicóloga clínica e orientadora de pais, Lílian Lucia de Oliveira, baseada no livro dos Orgonomistas J.H. e S.M. Volpi – “Crescer é uma aventura! Desenvolvimento emocional segundo a psicologia corporal” mas antes, vamos também refletir um pouco sobre o conteúdo de um outro livro: “Família e Mitos – prevenção e terapia: resgatando histórias” da psicóloga Marilene Krom.

Para essa autora, existem, em toda família, influências que atravessam gerações e atuam poderosamente na vida de seus membros sem que esses se dêem conta disso. Dizendo de outro modo, a história de vida dos nossos antepassados influencia ou mesmo determina o significado que damos a alguns dos acontecimentos em nossa vida, ou seja, determina a forma como sentimos, interpretamos, lidamos com esses acontecimentos e até mesmo as experiências que buscamos ter, bem como nossas escolhas afetivas e principalmente as expectativas que trazemos quando nos tornamos pais.
Então, as primeiras questões que surgem seriam: de onde ou de quem vêm as expectativas que alimentamos, de onde elas se originam, como podemos avaliar sua força, quais conteúdos as estão acionando e nos impelindo a irmos em busca de suas realizações?

Para responder a essas questões, vamos usar um conceito da terapia intergeracional: “Lealdade invisível”- que quer dizer uma série de expectativas estruturadas, diante das quais todas as pessoas na família assumem compromissos. Metaforicamente é como se fosse um grande e velho livro no qual se contabilizam os créditos e débitos familiares, estabelecendo conexões entre as gerações passadas e futuras, criando assim as expectativas que nos influenciam hoje e com as quais estamos comprometidos de maneira mais ou menos consciente.
À medida que as pessoas nascem , recebem de suas famílias essas expectativas e são acionadas a dar cumprimento a elas, mas são a qualidade e a profundidade dos laços emocionais, que determinam a intensidade de sua perpetuação.
Como vimos no artigo sobre as etapas do desenvolvimento emocional, é função da família acolher, cuidar, dar carinho, proteger, mas também permitir que os seus membros se diferenciem como indivíduos, pois apesar de pertencerem a um grupo, as pessoas devem ganhar um espaço dentro desse “grupo-família”, suficiente para que se desenvolvam de forma independente. E é justamente aí que essas expectativas estruturadas podem atrapalhar o desenvolvimento natural dessa pessoa em suas cinco etapas, conforme o artigo anterior.
Mas continuando, vejamos o relato que se segue: “ ... Meu avô foi um grande homem! Seus pais, meus bisavôs, eram imigrantes, claro que eram corajosos também, imagine suportar meses num navio para chegar a um país distante e trabalhar de sol a sol, mas foi o meu avô quem conseguiu, mesmo sem ter estudo, ganhar dinheiro e fazer todos os filhos estudarem. Os irmãos dele quase não deram pra nada. Com exceção do mais novo, que praticamente foi criado por ele e se tornou um executivo bem sucedido, os outros três se tornaram alcoólatras, e morreram muito cedo. É por causa desse meu avô que hoje vivemos tão bem. Acho que o maior legado foi: não há nada que não se possa conseguir se você se dedicar verdadeiramente. Isso nos fez fortes. Minha mãe me contou tudo isso e cabe a nós agora não deixarmos a peteca cair...” Daniel 18 anos.

Comentário: Nesse relato é evidente a admiração que Daniel sente por seu avô. A maneira como a mãe de Daniel lhe transmitiu a imagem do seu próprio pai continha provavelmente a expectativa de que o seu filho também viesse a se tornar um grande homem, determinado, esforçado e bem sucedido.
Percebe-se o profundo laço afetivo que a mãe de Daniel tinha com seu pai transmitido a Daniel através de seus relatos. Esse avô tornou-se um MITO para essa família perpetuado aos descendentes pela mãe de Daniel.
Entretanto, subjacente, existe também o lado sombrio dessa família, escrito nas entrelinhas do grande e velho livro da família, que como vimos acima, contabiliza não só os créditos mas também os débitos de seus membros. Uma análise mais profunda nos permite perceber o fantasma do alcoolismo, do fracasso, da pobreza, e da morte prematura, rondando essa estrutura familiar e ainda que haja o trabalho da mãe de Daniel em mostrar os créditos, é fato que três dos membros dessa família foram vítimas do alcoolismo e em decorrência, acabaram morrendo muito cedo. Vale ainda acrescentar ao relato de Daniel que um dos seus dois irmãos fez uso de drogas e no momento encontra-se em um programa de recuperação.
Para finalizar gostaria de acrescentar que há basicamente dois pecados que nós, os pais, podemos cometer na educação dos nossos filhos. O primeiro é acreditarmos que tudo se resolve por si só e portanto nossa interferência não é assim tão necessária, afinal as escolas hoje estão preparadas e lá com certeza saberão melhor do que nós o que fazer com nossos filhos. O outro pecado é acreditarmos que tudo que nossos filhos são será exclusivamente e tão somente determinado por nós, os pais. Só quero lembrar que embora a influência de nós, os pais, seja mesmo muito grande, nossos filhos também têm avós, tios, primos, e vivem inseridos em uma cultura. Portanto parece que o que nos resta fazer é tentarmos conhecer um pouco mais sobre a história dos familiares que nos antecederam, identificarmos seus sucessos e fracassos para entendermos melhor a influência dessa herança primeiramente em nós, nas nossas vidas, para que com isso possamos ajudar nossos filhos ou a usar os tesouros desse legado ou se for o caso, mudar a história. Boa sorte a nós pais!

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Com base nessas questões, o Espaço Wilhelm Reich, vem desenvolvendo regularmente em Maceió e em São Paulo, o Workshop: “O MAPA DAS INFLUÊNCIAS” – um espaço terapêutico com o propósito de investigar como os acontecimentos ocorridos na vida dos familiares que nos antecederam possam estar influenciando a nossa maneira de conduzirmos nossas vidas, uma vez que somos os herdeiros dessa história. É como se o grande e velho livro da contabilidade familiar fosse aberto e lido. O interessante é que as vezes, temos agradáveis surpresas: acabamos por descobrir alguns tesouros que estavam sendo sub aproveitados.


BIBLIOGRAFIA
- Krom, Marilene. Família e mitos:prevenção e terapia:resgatandohistórias. São Paulo, summus, 2000.
-Volpi, José Henrique. Crescer é uma aventura! Desenvolvimento Emocional segundo a Psicologia Corporal, Curitiba:Centro Reichiano, 2002.
WAD