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Contextualização Sócio-política da Obra de W.Reich

Autor: Marcia Oliveira e colaboradores


Esse artigo contextualiza a obra sócio política de Wilhelm Reich, que encontrou sua expressão mais clara e desenvolvida em seu trabalho no campo da saúde mental.
Eleusa Tenório – AABPP - 11146
Lilian Lucia de Oliveira - CRP – 15 / 2448
Márcia Oliveira – CRP - 06 / 4674
( ESPAÇO WILHELM REICH – AL/SP )

Francisco Borba Coelho – CRP – 06 / 3936
( CLÍNICA FRANCISCO )

Reich (1897-1957) foi um cientista comprometido com as questões humanas, que sempre entendeu a realidade individual dentro do seu contexto social. Para tal, transitou pelos domínios da biologia, psicologia, antropologia, sociologia e física interligando-os sempre.
No âmbito sócio político, sua pesquisa foi fundamentada em um conjunto de referências relativas às sociedades primitivas, ao anarquismo, ao socialismo, e à democracia. Dos seus estudos sobre etnologia ele enfatizou as questões da vida comunitária, da liberdade sexual e do amor natural; do anarquismo, o exercício da liberdade pessoal e o conceito de autogestão social e da democracia a possibilidade de participação nas decisões sociais.
Suas propostas para uma sociedade orientada pela auto regulação biológica (enquanto indivíduo) e pela auto gestão social (enquanto comunidade), são encontradas principalmente nas obras: La Irupcion de La Moral Sexual; Combate Sexual da Juventude; A Revolução Sexual; Psicologia de Massas do Fascismo; People in Trouble; Escuta, Zé Ninguém! e O Assassinato de Cristo.

Vamos entender um pouco mais sobre isso:
Reich trabalhou com Freud de 1920 a 1934 e embora fosse um médico bastante comprometido com a causa da Psicanálise, a atmosfera política da época causava-lhe grande impacto: a Europa estava conturbada pelos efeitos da 1ª guerra mundial (1918-1927), havia também a influência da revolução russa (1917) e ainda os muitos ativistas socialistas austríacos bem como as discussões sobre marxismo.
Por esta época, Reich trabalhava na Policlínica Psicanalítica de Viena que oferecia tratamento gratuito às pessoas que não podiam pagar. Ao invés de se isolar em um consultório particular ,como fazia a maioria de seus colegas, Reich se interessou pela saúde mental do proletariado. Entretanto, a prática mostrou que era muito complicado aplicar a Psicanálise nesses pacientes. Reich se perguntava como poderia buscar a origem dos problemas psíquicos na infância, se por toda a vida o paciente viveu na miséria ou num trabalho escravizador ? Ou ainda, como falar por exemplo em Complexo de Édipo, quando pais e filhos dormiam no mesmo cômodo, sem qualquer privacidade. Então, Reich foi percebendo que para tratar essas pessoas, seria necessário criar um tipo de clínica que pudesse ter uma função educacional e orientadora para ajudar esses pacientes a lidar com o tipo de problemas que eles traziam nas suas consultas. Então em janeiro de 1929, formou a Sociedade Socialista para Consulta Sexual e Pesquisa Sexológica e sob essa coordenação, foram abertas seis novas clínicas de higiene mental com o objetivo de gratuitamente orientar as pessoas em questões relativas a criação de filhos, problemas conjugais, métodos contraceptivos, dificuldades sexuais e educação sexual, além de palestras e discussões em grupo sobre esses temas.
Paralelamente, sua vida política se fazia cada vez mais ativa e em 1928, após assistir a um massacre de trabalhadores pela polícia, numa greve em Viena, ingressou no Partido Comunista Austríaco, atuando como médico. Reich questionava as razões que levaram os policiais a atirarem a esmo, sem considerarem se atingiriam homens, mulheres ou crianças e sobretudo, por que a multidão não reagiu a isto, uma vez que estava em número bem maior? Todos pareciam agir como máquinas. Onde estaria então o instinto de vida nessas pessoas? Neste mesmo ano (1928) fundou em Viena a Sociedade Socialista para Aconselhamento e Pesquisa Sexual.
Em decorrência dessa prática clínica, Reich foi se convencendo cada vez mais de que somente uma transformação da sociedade poderia por fim à miséria social, econômica e psíquica. Assim passou a dedicar-se à profilaxia das neuroses. A partir daí, suas investigações assumiram um caráter revolucionário.
Em 1929 Reich visitou a União Soviética para constatar os avanços na área da educação e as conquistas da revolução de 1917. Ficou decepcionado. Observou um retrocesso na legislação e no comportamento das pessoas . Os projetos revolucionários propostos por Lênin estavam sendo revistos e cancelados no período stalinista. As pessoas adotavam comportamentos iguais aos de qualquer sociedade capitalista. Ao retornar a Viena, publicou em 1930, a primeira parte do livro A Revolução Sexual.
Em Viena a pressão sobre o seu trabalho de saúde mental era enorme. Seus ¨conselhos liberadores da culpa¨ em relação a sexualidade dos jovens o tornaram perigoso aos olhos da imprensa burguesa. Também a sua crescente atividade política começava a desagradar a Sociedade Psicanalítica. Então a conselho de Freud mudou-se para Berlim em setembro de 1930, onde suas teorias sobre a integração dos conceitos de Marx e Freud eram compreendidas e aceitas. Reich prosseguiu suas pesquisas com a intenção de explicar historicamente o problema das perturbações neuróticas das massas.
Fundamentando-se nas pesquisas do antropólogo inglês Malinowsky, que pesquisou a organização matriarcal dos habitantes dos arquipélagos Trobrian, na Malásia, Reich escreveu em 1931 o livro La Irupcion de la Moral Sexual – A Origem da Repressão Sexual. Nesta obra Reich relata suas conclusões sobre a passagem do matriarcado para o patriarcado e desse à sociedade autoritária, demonstrando que os tabus sexuais são determinados economicamente e conduzem à submissão, à família compulsiva e ao Estado autoritário, perpetuando assim a estrutura de caráter submisso.
Com o apoio do partido comunista alemão fundou a SEXPOL (Associação para uma política sexual proletária) que teve uma enorme influência sobre as pessoas, principalmente os jovens, chegando a ter aproximadamente 40.000 membros filiados. Seguem os sete principais objetivos desse programa :
1- livre distribuição de contraceptivos àqueles que não os pudessem obter através de canais normais e propaganda maciça pelo controle da natalidade, com a finalidade de combater a necessidade de aborto;
2- abolição completa da proibição existente de aborto. Disponibilidade de aborto livre nas clínicas públicas, assistência financeira e médica à gravidez e ao aleitamento materno;
3- abolição da distinção entre casados e não casados no sentido legal, abolição do sentido de adultério, liberdade de divórcio, eliminação da prostituição pela reeducação, mudanças econômicas e econômico sexuais para erradicar suas causas;
4- eliminação das doenças venéreas através de completa educação sexual e acima de tudo, a substituição de comportamentos sexuais promíscuos por relações sexuais saudáveis;
5- prevenção de neuroses e problemas sexuais através de uma educação positiva para a vida, estudo de princípios de pedagogia sexual, fundação de clínicas terapêuticas;
6- treinamento de médicos, professores, trabalhadores na área social, etc em todas as questões relevantes da higiene sexual;
7-substituição da punição nos crimes de ordem sexual por tratamentos, prevenção de crimes sexuais através de métodos melhores de educação e da eliminação das causas econômicas, proteção das crianças e adolescentes contra a sedução de adultos.
Por essa ocasião três importantes obras foram escritas: a primeira delas direcionada para mães, If Your Child Asks You – escrito por Annie Reich , a segunda para crianças de oito a doze anos, The Chalk Triangle e a terceira para jovens, O Combate Sexual da Juventude.

A Peste Emocional
As implicações sócio-políticas dos conceitos de Wilhelm Reich levaram-no a ser sempre muito combatido, sobretudo de maneira irracional. Cada vez mais ele abandonava a crítica à ordem social autoritária para se dedicar à exposição das forças do irracionalismo social. Por volta de 1941, Reich apresentou o termo Praga ou Peste Emocional. Esse conceito foi introduzido por Reich, para descrever um fenômeno perturbador: a p r e s e n ç a da i r r a c i o n a l i d a d e e da d e s t r u t i v i d a d e nos g r u p o s.
Quando Reich estudou as personalidades neuróticas descreveu-as em três camadas:
- A primeira chamou de camada superficial controlada, que presta devoção da boca para fora aos valores e objetivos morais;
- uma camada mediana destrutiva e patológica que seria ¨o inconsciente freudiano reprimido¨;
- e uma fonte primária de impulsos biológicos não distorcidos.
No neurótico, essas três camadas geralmente estão em conflito entre si. Entretanto, sob certas condições sociais, os impulsos patológicos da camada secundária poderiam se tornar racionalizados e assim justificados, podendo se expressar de maneira muito mais completa do que o neurótico comum seria capaz de fazer normalmente com os seus impulsos perversos.
O indivíduo contaminado pela peste emocional é uma pessoa que entrou numa situação de reforço mútuo com outras pessoas que têm em comum uma série de impulsos destrutivos, dos quais não estão conscientes, e juntas criam um ¨álibi social¨ para realizarem esses impulsos conjuntamente, através do mecanismo da racionalização, mediante a ideologia de algum grupo.
Na história da humanidade não é difícil encontrar inúmeros exemplos de processos de praga emocional em ação. O surgimento do fascismo na Alemanha nazista seria um excelente exemplo. O termo praga se refere à natureza contagiosa da histeria social e à dificuldade de se resistir a ela. Em seu livro A Psicologia de Massas do Fascismo, Reich já havia tentado compreender o surgimento do nazismo. Para ele o fascismo político seria a expressão social de um fascismo básico, emocional e individual. Poderia ser encontrado em todos os credos religiosos, podendo ocorrer mesmo em grupos de pessoas cujos objetivos conscientes tivessem um caráter extremamente positivo.
Em seu livro Escuta, Zé Ninguém!, Reich fala de forma emocional sobre os muitos ataques, conspirados socialmente, sofridos ao longo de seu trabalho.
Haveria muito mais a ser falado sobre a trajetória de Wilhelm Reich em seu aspecto sócio-político. Nosso objetivo foi apenas de forma resumida, ressaltar alguns pontos que julgamos importantes. Sugerimos aos leitores que desejarem aprofundar sua compreensão sobre esse tema que leiam as obras de Reich citadas ao longo desse texto.


Este artigo foi inspirado no texto ¨Reich – O difícil de tanger¨, escrito em Junho de 2002 pela psicóloga social Ilda Fontan e no artigo escrito pelo orgonoterapeuta Geraldo Guedes da Silva, membro da Associação W.Reich do Brasil, em 1997 e apresentado no Encontro Comemorativo do Centenário de W.R. . Foi ainda fundamentado nas obras escritas por Reich supra citadas e também no livro de David Boadella – ¨Nos caminhos de Reich¨.


É nosso propósito informar, comentar e até mesmo divulgar trabalhos de outros profissionais, que na nossa visão também estejam contribuindo para o desenvolvimento da pesquisa e/ou da prática clínica nas abordagens psicocorporais na atualidade.
Então, à propósito do assunto abordado no texto acima, gostaríamos de mencionar três importantes trabalhos que vêm sendo realizados com sucesso há alguns anos em nosso país. Visando sempre a inclusão social, esses trabalhos combatem o preconceito, a massificação, a miséria e a violência, algumas das expressões mais freqüentes da peste emocional.
São os trabalhos que vêm realizando os terapeutas: Ricardo Cariello, Jayme Panerai Alves e Grace Wanderley de Barros Correia e ainda Eugenio Marer:

Ricardo Cariello – psicólogo - (mar. Cari @uol.com.br)
¨¨Trabalhando há aproximadamente 10 anos com reabilitação neurológica através da psicoterapia corporal, pude observar no contato terapêutico com portadores de deficiência, familiares e seu ambiente uma fenomenologia da intolerância à diferença cristalizada no corpo, que pode ser explicada pela conceituação reichiana.
A célebre frase de Reich: O trabalho, o amor e o conhecimento são a fonte da vida, deveriam também governá-la, sofre no organismo encouraçado uma distorção e uma projeção. Ao lado da perda da capacidade para o amor, do trabalho prazeroso e do conhecimento verdadeiro, produziu-se na sociedade atual os mitos reversos da sexualidade bem resolvida, do trabalhador hiper - produtivo e dos poderes tecnológicos da ciência. Esses mitos servem para o escape perceptivo do bloqueio dos potenciais em cada um dos participantes da sociedade e ao mesmo tempo projeta-se no ¨diferente¨ as incapacidades relativas a essas fontes da vida. No caso da diferença física, essa projeção da incapacidade para a pulsação vegetativa, ganha a força mitificadora que fortalece o estigma e agrupa principalmente os três reveses da mitologia pós moderna: a impotência sexual, a incapacidade para o trabalho e o obstáculo para o conhecimento (o desafio que a regeneração neuronal implica para a ciência).
Trabalhando com psicoterapia corporal a intolerância à diferença no corpo ¨deficiente¨ e recuperando suas capacidades vegetativas, operamos igualmente no seu ambiente, favorecendo uma mudança no olhar da família e da sociedade, diminuindo as projeções e facilitando um maior contato de cada um consigo mesmo, com suas limitações e potenciais.¨

Jayme Panerai Alves – psicólogo, diretor do Libertas Comunidade, Recife - Pernambuco (www.libertas.com.br)
¨ ... Na sociedade, pela falta do olhar compreensivo com as diferenças, muitas vezes exige-se uniformidade. Elege-se um corpo padrão e pressiona-se as pessoas para enquadrarem-se nesse modelo.¨ ¨... A Análise Bioenergética ... permite ... adotar uma postura de independência.¨ ¨... Concentrando nossos esforços na ampliação da nossa auto aceitação, fortalecemos a atitude de aceitar ... melhor ... os outros. Esta é a chave para abrirmos a porta da tolerância com as diferenças e os diferentes. Estender o olhar para dentro de nós mesmos. Aceitar nossas luzes e sombras é decisivo para aceitarmos a diferença do outro, seja em relação a cor da pele, peso, raça, sexo. Dissolver preconceitos é uma das lutas de todas as pessoas que lidam com a busca do desenvolvimento humano. O amor, a primeira das três recomendações de Reich, pode ser instrumento efetivo e afetivo na busca desta integração interna/externa, eu/outro ...¨

Eugenio Marer - psicólogo, fundador do C.I.O. ( Centro de Investigação Orgonômica, Wilhelm Reih). Supervisor do trabalho desenvolvido pela psicóloga Tânia Maria Lima, sócia fundadora da ONG- AVICRES situada na baixada fluminense no Rio de Janeiro, e também presidente ONG – Ação Social Wilhelm Reich.
¨ Este trabalho desenvolveu o treinamento de 190 funcionários, professores e educadores para lidar no dia a dia com 450 crianças e adolescentes de ambos os sexos. Jovens traumatizados ... excluídos socialmente ... e frutos de famílias destruídas em uma das regiões mais violentas do país. ... levou-se em consideração não só a questão do aprendizado formal, mas a compreensão por parte da equipe, dos fatores emocionais inscritos nos corpos dessas crianças, vítimas da violência, brutalidade e indiferença ... elas foram tratadas de uma maneira suave e afetiva para que seus corpos pudessem aos poucos se afrouxar, aceitar ajuda e expressar sentimentos... ¨

Na certeza da relevância desses trabalhos no combate à exclusão social, nós, do Espaço Wilhelm Reich, cumprimentamos nossos colegas pela iniciativa e desejamos muito sucesso em seu trabalho.



WAD