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Biopatias: o que está errado é a forma de viver?

Autor: Marcia Oliveira CRP 06/4674




Este trabalho foi apresentado no II ENCONTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – 1998. Refere-se a fase política de Reich 1927 a 1934.

É baseado nas seguintes obras políticas:
``Psicanalisis y sociedade: apuntes de freudo-marxismo´´- W.Reich e Igor A. Caruso – editorial Anagrama
``Materialimo Dialético e Psicanálise´´, W.Reich – editorial Presença, Portugal
``Marxismo y Psicoanalisis´´ – ediciones del siglo
``Psicologia de Massas do Fascismo´´- editora Martins Fontes

E também nas seguintes obras biográficas:
``Paixão de Juventude´´- uma autobiografia 1897-1922 – editora brasiliense
``Uma biografia personal por Ilse Ollendorff de Reich – Granica editor, España


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APRESENTAÇÃO

ALGUNS AUTORES DIVIDIRAM A OBRA DE WILHELM REICH EM TRÊS MOMENTOS:

1º MOMENTO (1920 A 1934)
a) período psicanalítico
b) período da Análise do Caráter

2º MOMENTO (1934 A 1939)
período da Vegetoterapia Caracteroanalítica

3º MOMENTO (1939 A 1957)
período da Orgonoterapia


O contato de Reich com Marx, Lênin e Engels, levou-o a uma tentativa de conciliar a teoria freudiana com a teoria marxista estabelecendo relações entre esses dois universos.

DOMÍNIO CLÍNICO ------------------------- DOMÍNIO SOCIAL
(FREUD) (MARX)


Durante sete anos, Reich dedicou-se intensamente ao trabalho clínico social.
Este trabalho refere-se ‘a fase política de Reich’(1927 a 1934) que coincide com a segunda metade do 1º MOMENTO


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Antes do 1º MOMENTO
Um pouco da biografia pessoal

Wilhelm Reich nasceu a 24 de março de 1897 em Dobrzcynica, na parte da Galitzia que pertencia ao império austríaco.
Membro de uma família de camponeses, Reich teve um papel ativo na administração da fazenda, mesmo que em paralelo continuasse seus estudos.
Por volta de 1915 eclodiu a 1ª Guerra Mundial. Reich alistou-se no exército austríaco servindo-o de 1915 a 1918 sendo promovido a tenente um ano após.
Quando em outubro de 1918 Reich retornou a Viena, a princípio ingressou na faculdade de Direito mas decepcionou-se já nos três primeiros meses, com a maneira formal que os assuntos humanos eram tratados. Decidiu então ingressar na faculdade de Medicina.

Depois de voltar da guerra, Reich e seu irmão Robert encontraram-se muito pobres. Dividiam um pequeno apartamento com outros colegas, Reich não tinha roupas civis, freqüentava as aulas com uniforme militar, obtinha seus livros graças a doações da Sociedade Médica de Viena e alguns amigos dividiam seu almoço com ele.
Entretanto, logo após os seis primeiros meses de faculdade, Reich já conseguia ganhar algum dinheiro dando aulas particulares aos seus colegas. Dotado de grande agilidade mental, capacidade de liderança e forte determinação, conseguia sobreviver nesse período tão difícil.



Janeiro de 1919
Com a finalidade de contra atacar a negligência do curso de medicina em relação a sexualidade humana, alguns estudantes organizaram um seminário sobre sexologia, que Reich, devido as suas valiosas colaborações veio a se tornar coordenador naquele outono.
Foi nesse contexto que Reich veio a ler Freud pela primeira vez. Ficou fascinado!
Enquanto os autores pré-freudianos, pareciam identificar ``libido,´´ apenas como o desejo sexual consciente, Freud ia mais além: via-a como energia! Reich ficou tão interessado e entusiasmado com esses então novos e revolucionários conceitos psicanalíticos que foi convidado a tomar parte como estudante não graduado na Sociedade Psicanalítica de Viena. Uma distinção bastante infreqüente naquela época. Reich contava então 23 anos.
Reich formou-se em 1922 dois anos antes do normal, privilégio dado aos veteranos de guerra, que conseguissem cumprir o currículo nesse prazo.


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1º MOMENTO (1920 a 1934)

Viena
Muito embora Reich estivesse absolutamente envolvido com o estudo, a prática e a fundamentação científica da teoria psicanalítica, a excitante atmosfera política desse tempo não podia deixar de causar-lhe impacto.
A influência da Revolução Russa, os muitos ativistas socialistas austríacos, os muitos intelectuais brilhantes que em todas as partes escreviam e discutiam sobre o marxismo, não poderiam deixar de impressionar a mente ativa e penetrante de Reich. Com seu empenho habitual, começou estudar Marx e sua filosofia, incorporando-se ao Partido Socialista Austríaco.
Em 1922, Freud havia fundado a Policlínica Psicanalítica de Viena e Reich foi seu primeiro assistente clínico, situação que manteve até 1928 quando se tornou vice-diretor, ocupando essa posição até 1930, quando deixou Viena. A Policlínica fornecia tratamento psicanalítico gratuito ‘as pessoas que não podiam arcar com os encargos da Análise’.
Esse trabalho, levou-o a um contato mais estreito com a classe trabalhadora e por volta de 1924, começou seus estudos sobre as causas sociais das enfermidades mentais. Reich compreendeu antes de muitos de seus contemporâneos a urgente necessidade da criação de centros de saúde mental. Reich queria criar uma espécie de clinica que tivesse uma função educacional para ajudar as pessoas a lidar com suas dificuldades sexuais diárias.
Com o conhecimento de Freud, fundou em 1929 a Sociedade Socialista para a Consulta Sexual e Pesquisa Sexológica que coordenava seis novas clinicas de higiene mental que foram abertas com a proposta de gratuitamente informar e orientar as pessoas sobre controle de natalidade, problemas conjugais e educação sexual de crianças e adolescentes . As clínicas eram ainda centros, onde mensalmente ocorriam palestras mensais e discussões em grupo, ‘a semelhança do que hoje fazemos dentro da Técnica R.O.M. com o nome de ``Encontro de Cidadãos``.
Após 1927 sua vida política se fez mais ativa. Em 1928 filiou-se ao Partido Comunista Austríaco tornando-se um membro muito atuante.


União Soviética – (1929)
Reich interessou-se pelos avanços das leis e da educação de crianças como profilaxia das neuroses.
Realizou conferências sobre Sociologia e Psicologia na Academia Comunista de Moscou e sobre Profilaxia das Neuroses no Instituto Neuropsiquiátrico de Moscou.
Reuniu-se com médicos e educadores soviéticos – em especial com Vera Smith, e visitou vários Jardins da Infância e creches.


Alemanha – Berlim – (setembro de 1930 a março de 1933)
A crescente atividade política de Reich começou a desagradar profundamente a Sociedade Psicanalítica de Viena, o que acabou por lhe trazer cada vez mais conflitos pessoais. Por outro lado, Reich já era uma força efetiva no Partido Comunista e um participante ativo na Sociedade Psicanalítica de Berlim. Suas teorias a respeito da integração entre Freud e Marx eram nesse contexto perfeitamente compreendidas. Psicanalistas com uma visão marxista como Erick Fromm e Siegfried Bernfeld, escutavam, entendiam e discutiam com muita atenção suas teorias. Otto Fenichel, que o havia conhecido em Viena e se mudado para Berlim, começou a organizar grupos de jovens psicanalistas, para serem treinados dentro desta perspectiva.
Somado a esse contexto, Reich vinha sentindo a necessidade de concluir sua análise pessoal e a conselho de Freud, transferiu-se para Berlim a fim de concluí-la com o psicanalista Sandor Rado.


1930 – Uma intensa atividade foi desenvolvida:
-Conferência sobre Profilaxia das Neuroses na Associação de Médicos Socialistas de Berlim
-Palestras e cursos no Centro Socialista para Educação de Adultos
-Treinamento de terapeutas orientados políticamente – com Otto Fenichel.

O compromisso de Reich com a Higiene Mental Politicamente Orientada era tão grande que o Partido Comunista Alemão esteve de acordo com a organização de uma associação com bases na política sexual: A Associação Alemã para uma Política Sexual Proletária – SEXPOL, que na época de sua fundação já contava com vinte mil membros, número que duplicou após um ano.

Propostas da SEXPOL:

Divulgação maciça sobre métodos de controle da natalidade e a livre distribuição de contraceptivos ‘aqueles que não puderem comprá-los’.

Abolição da lei que proibia o aborto. Aborto gratuito em clínicas públicas para a mulher que decidisse interromper a gravidez e assistência médica e financeira durante a gravidez e o aleitamento para a mulher que optasse por ter a criança.

Abolição da lei que diferenciava casais casados dos não casados. Abolição do conceito de adultério como crime. Direito ao divórcio. Eliminação da prostituição através da reeducação sexual e pelas graduais mudanças econômicas (trabalho nas causas).

Eliminação das doenças venéreas sobretudo substituindo comportamentos promíscuos por relações sexuais saudáveis através de uma completa educação sexual.

Substituição da punição pelo tratamento, nos crimes sexuais. Proteção das crianças e adolescentes da sedução sexual do adulto.

Promover a profilaxia das neuroses em geral, através do estudo, desenvolvimento e instalação de uma pedagogia orientada para a vida bem como a eliminação das causas econômicas. Fundação de clínicas terapêuticas.

Treinamento de doutores, professores e profissionais da área de saúde, nas questões de educação sexual.

Reich pretendia conciliar as descobertas iniciais de Freud com a prática revolucionária e fazer com que isso fosse útil ao proletariado, fortalecendo-o na sua luta por sua emancipação econômica, política e sexual. Entretanto o movimento assumiu proporções que assustou o Partido Comunista, que temeroso que o ardor revolucionário, principalmente nos grupos jovens, pudesse ser substituído pelas questões relacionadas a higiene mental, deslocando-os da luta econômica, tratou de neutralizá-lo, a princípio oferecendo a Reich um cargo no comitê político, que foi recusado, e mais tarde, um ano antes de os comunistas serem derrotados por Hitler, a proibição da venda e distribuição dos livros e folhetos dentro das organizações, bem como sua retirada de todas as bibliotecas.

De modo que os psicanalistas entenderam que a atividade política de Reich nessa época era por demais comprometedora e iniciaram esforços para excluí-lo da Associação Psicanalítica Internacional, enquanto por sua vez, os comunistas consideraram a insistência de Reich na política sexual, igualmente comprometedora para ser tolerada.
Disso resultou que Reich foi excluído oficialmente do Partido Comunista em 1933 e da Associação Psicanalítica Alemã e Internacional em 1934, por ocasião do XIII Congresso da API, realizado em Lucerna, Suíça.



1931 Reich funda a SEXPOL VERLAG – uma editora independente com o objetivo de se emancipar de qualquer tutela ou pressão.
Publica ``Revelação dos segredos dos adultos`` - destinado a crianças
``Se teu filho pergunta`` - destinado a pais
``O combate sexual da juventude`` - destinado aos jovens



1932 Publica ``A Irrupção da moral sexual´´- 1ª edição. (A ed. inglesa revisada é de 1943)
Baseado nos estudos do antropólogo Malinowski, sobre os habitantes das ilhas Trobriand –``A vida sexual dos selvagens``, Reich dá uma explicação teórica sobre o desenvolvimento da condição do homem, do matriarcado ao patriarcado e deste ‘a sociedade autoritária’.



1933 Hitler toma o poder e Reich abandona Berlim
Em março Reich retorna a Viena e encontra um ambiente pouco acolhedor as suas atividades, pelo fato de seus colegas considerarem que a ciência nada tem a ver com a política. Na universidade os alunos foram aconselhados a não assistirem as suas aulas, Freud o evita por ter usado a Psicanálise com fins alheios a sua essência: ``A finalidade da Psicanálise não é salvar o mundo``- S.Freud

Em 1º de maio muda-se para a Dinamarca – Copenhague (permanece por seis meses)
A SEXPOL-VERLAG também é transferida.
Publica: ``A Análise do Caráter``- teoria e técnica para analistas futuros e em exercício. (em essência a técnica já havia sido publicada em 1928/29 sob o título: ``’A propósito da Análise Caracterial`` ou ``Sobre a Análise do Caráter`` (livro escrito para terapeutas0.

Em agosto publica ``Psicologia de Massas do Fascismo`` (1ª edição) (A ed. inglesa é de 1946.)
Reich pede permissão oficial a Sociedade de Psicanálise, para trabalhar como analista didático na Dinamarca. Depois de muita hesitação a autorização lhe é negada.

Viaja ‘a Inglaterra onde tem contato amistoso com os analistas em termos pessoais, porém não há receptividade ao seu trabalho teórico porque se temia a introdução de um analista politicamente comprometido e que além disso estava desenvolvendo uma terapia com ênfase nos aspectos sexuais das neuroses. Encontra Malinowski com o qual estabelece uma estreita e duradoura amizade.

Em setembro radica-se na Suécia – Malmo até junho de 1934 (9 meses)
Antes, volta a Dinamarca passando pela Checoslováquia e Alemanha. Queria ter uma impressão pessoal da vida sob o regime de Hitler. Sentiu que apesar dos esforços dos militantes clandestinos, as massas iam tomando lentamente a saída fácil de ``seguir o Fuhrer``.
Sob o pseudônimo de Ernest Parell, escreveu um curto artigo a respeito dessa sua experiência: ``O que é a consciência de classe?`` publicado em 1934 pela SEXPOL-VERLAG em Copenhague.
Como o acesso de Copenhague (Dinamarca) a Malmo (Suécia) podia ser feito facilmente por barco, Reich manteve um estreito contato durante toda sua permanência com estudantes que queriam continuar seus estudos e colaboradores membros do Grupo Psicanalista Marxista de Berlim que faziam um trabalho em consultório com controle da natalidade e defendiam uma mudança nas leis a respeito do aborto o que lhe causava problemas com as autoridades dinamarquesas. Nesse grupo havia ainda professores, em especial do Jardim da Infância, que trabalhavam com o princípio da ``auto regulação organísmica´´.



1934 Junho - É revogada a autorização para Reich viver e trabalhar na Suécia. A combinação de sexo, psicanálise e política, era demasiada para que as autoridades compreendessem seu trabalho.

Agosto – Reich é expulso da Sociedade Internacional de Psicanálise. Apresenta entretanto o trabalho ``Contato Psíquico e Corrente Vegetativa´´, na condição de conferencista convidado. Este deve ser considerado o primeiro trabalho que explica a unificação mente-corpo.

Entre 1934 a 1939, Reich escreveu inúmeros artigos sobre Psicologia, Política e Economia Sexual. Deu uma série de conferências para médicos, algumas palestras para estudantes e outras poucas para trabalhadores, mas cessou sua participação ativa em qualquer movimento ou organização política. Quando a convite do Dr. Harald Schjelderup, diretor do Instituto Psicológico da Universidade de Oslo, na Noruega, que havia sido treinado por Reich na Dinamarca, colocou a sua disposição um laboratório para que ele pudesse fazer seus experimentos a respeito da função bioelétrica sobre a sexualidade e angústia, Reich procurava empregar refugiados políticos alemães como secretários, assistentes de laboratório, trabalhadores da editora, etc.


Durante séculos, líderes políticos foram capazes de simultaneamente falar de paz, liberdade, valores democráticos, enquanto se envolviam em guerras.
Todos os movimentos libertários pressupunham um otimismo irreal sobre a capacidade das massas de governarem suas próprias vidas. Reich chegou a comparar essa atitude como a de um médico charlatão que diz a seus pacientes que eles não estão de fato paralisados e que se tiverem firmeza de pensamento, serão capazes de andar. Por outro lado, os sistemas políticos opressivos, têm a crença de que as pessoas são despreparadas para governarem, suas vidas e suas condições de trabalho, sendo escravas por natureza.
A visão de Reich, baseou-se no reconhecimento da capacidade inerente a todo ser humano de ser livre ao mesmo tempo que sente medo dessa responsabilidade. Mas como esse medo é oriundo de condições sociais seria portanto alterável.
Cada vez mais, abandonava a crítica ‘a ordem social autoritária’ para se dedicar ‘a exposição das forças do irracionalismo social nas pessoas em geral’, que alimentavam instituições e atividades repressoras, tornando-as possíveis.

Em 1941, já havia apresentado o termo ``praga emocional´´ como nome genérico para todas as formas de patologias sociais organizadas ou sem organização.























WAD