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As Sementes da Orgonomia...

Autor: Marcia Oliveira CRP 06/4674


As Sementes da Orgonomia, na Psicanálise, na Análise do Caráter e na Vegetoterapia Caractero Analítica

Marcia Oliveira
CRP 4674/06
Lilian Lúcia de Oliveira
CRP 2448/15


1ª parte: As sementes da Orgonomia na Psicanálise

Reich tomou conhecimento de Freud e da Psicanálise através da Sexologia.

Em Janeiro de 1919 alguns estudantes, colegas de Reich do curso de medicina da faculdade de Viena, descontentes com a maneira negligente que o estudo da sexualidade humana estava sendo tratado, resolveram organizar um seminário sobre sexologia. Reich freqüentava regularmente esses encontros mas decepcionava-se com a maneira que o tema sexualidade era abordado.

``... talvez a moralidade com que o tema era tratado, era o que me perturbava ... faltava naturalidade ... eu havia experimentado a sexualidade de maneira diferente da que se discutia naquele curso ... havia algo esquisito, estranho, nas exposições daquelas primeiras conferências ... o inconsciente estava cheio de instintos perversos ... a sexualidade natural não parecia absolutamente existir...´´W.Reich

Reich então começou pesquisar trabalhos que tratassem sobre sexualidade, inclusive os escritos por Freud. Com estes Reich ficou impressionado!

``... Freud era uma extraordinária experiência intelectual ... Separei imediatamente a literatura sexológica em dois grupos: um sério e outro moralista e lascivo...´´ W.Reich.

Então no verão de 1919, Reich apresentou nesse seminário o ensaio: ``Conceitos sobre Libido de Forel a Jung´´, no qual expôs quão diferentemente a sexualidade era encarada pelos autores: Forel, Moll, Block, Jung e Freud.

``... ‘A exceção de Freud todos acreditavam que a sexualidade despertava !!! Vinda de ``um céu azul sem nuvens´´ surpreendia o homem na puberdade. Ninguém podia dizer, onde havia ela estado antes disso ...´´W.Reich.

Nesse trabalho Reich esclarece que os escritores pré freudianos, empregavam o conceito de ``libido´´ para denotar o desejo consciente de atividade sexual enquanto Freud ia mais longe, mostrava que a sexualidade adulta provinha de estágios de desenvolvimento desde a infância, e ainda que sexualidade e procriação não eram a mesma coisa e o mais importante: o instinto encontrava-se no cerne biológico do nosso organismo, portanto mais além das nossas idéias. Por isto a ``libido´´ de Freud não era a mesma dos pré freudianos.

Os colegas de Reich ficaram tão satisfeitos com esse trabalho que o elegeram presidente do seminário no outono desse mesmo ano.

Na direção do seminário Reich formou grupos para estudar a sexologia em seus diferentes aspectos: Biologia, Fisiologia, Endocrinologia e também a Psicanálise, que aos poucos foi adquirindo supremacia sobre as demais disciplinas.

Em 1920, Reich candidatou-se a membro da Sociedade Psicanalítica de Viena e embora não fosse comum naquela época admitir-se membros ainda não graduados, Reich foi aceito logo após apresentar o artigo: ``O conflito libidinal e a ilusão de Peer Gynt´´.
Reich contava então 23 anos.
Os primórdos da Psicanálise

Freud, que foi aluno do Dr. Charcot entre 1885 e 1886, num estudo comparativo entre as paralisias orgânicas e histéricas, colaborou em 1892, com o Dr. Josef Breuer, em um estudo a respeito dos sintomas histéricos.
Nesse estudo descobriu-se empiricamente que, se as lembranças infantis subjacentes ‘a histeria pudessem ser recordadas com emoção, os sintomas histéricos desapareceriam.

``... Queremos dizer que se uma descarga de sentimentos ocorrer com intensidade suficiente com seus reflexos voluntários e involuntários, então os afetos melhorariam... ´´ S.Freud

Em 1893 Freud e Breuer publicaram o artigo intitulado: ``Comunicação preliminar sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos´´ que postulava o princípio teórico de que é a presença da emoção associada ‘a recordação que produz o efeito terapêutico.
Nesse artigo ainda, Freud manifestou sua crença de que os sintomas representavam uma forma anormal de descarga para determinadas quantidades de excitação, que não puderam ser descarregadas da maneira natural.

Como vimos, já nos primórdios da Psicanálise, foi descoberta a relação fundamental entre doença física e energia emocional; e também, que se a energia pudesse ser descarregada, a doença física não ocorreria.

Nos anos iniciais da Psicanálise, Freud ficou bastante envolvido com o conceito de energia física. Sua formação biológica (medicina) o conduzia ‘a vontade de traduzir em termos fisiológicos suas descobertas sobre o funcionamento emocional. Por volta de 1894 Freud chegou inclusive visualisar essa energia física como capaz de aumentar, diminuir e propagar-se na superfície do corpo (e não apenas nos órgãos sexuais) como se fosse uma corrente elétrica.

Na prática clínica, a análise dos sintomas histéricos permitiu que Freud pudesse afirmar com segurança, que era de origem sexual a natureza dessa energia, que o acúmulo da energia sexual não descarregada seria a fonte de todas as neuroses, e que não era possível haver neurose na presença de uma vida sexual natural.

``... O resultado mais importante que se chegou através da pesquisa analítica é que qualquer que seja a causa e o sintoma tomados como ponto de partida, no final caímos invariavelmente no campo da experiência sexual ... ´´ S.Freud

```... Sabemos bem demais qual é a única prescrição para esses casos, mas não podemos prescrevê-la: É ``penis normalis ... !´´ Chrobak, médico vienense numa carta a Freud, na qual comenta a causa das crises agudas de angústia de uma paciente que após oito anos de um casamento com um homem impotente, ainda permanecia virgem.

``... Mais, dans dês cãs pareils, c´est toujours la chose génitale, toujours! toujours!
toujours! ...´´ Charcot, relatando a um colega , que parecia não perceber a relação. O caso de uma mulher jovem que sofria de sintomas agudos, casada com um homem impotente.

Esse ponto de vista foi relegado a um abandono progressivo, tanto por Freud como por seus seguidores. A Psicanálise cada vez mais foi se atendo aos conteúdos da vida psíquica e se desenvolvendo na direção a uma ``psicologia das idéias.´´

Diferentemente, o foco de Reich permaneceu no aspecto quantitativo dessa energia. A ele coube então a difícil tarefa de se dedicar a essa teoria inicial, confirmá-la, desenvolvê-la e usá-la como ponto de partida para todo o seu trabalho posterior: a energia física.

Provavelmente o motivo que levou Freud a abandonar a teoria inicial dos instintos, foi a dificuldade em explicar questões básicas como:
A) Qual a natureza da excitação sexual?
B) Qual a relação entre tensão sexual e a sensação de prazer?
C) Como a libido se transforma na sensação de angústia?

Todas essas questões foram posteriormente pesquisadas, respondidas por Reich e publicadas originalmente em alemão pela Sexpol Verlag em 1937 e mais tarde traduzido para o inglês sob o título de ``Experimental Investigation of the electrical function of sexuality and anxiety ´´ e publicado no Journal of Orgonomy, vol 3, números 1-2, em 1969

Um pouco a respeito da prática clínica daquela época.

Na época do ``tratamento catártico´´, o objetivo era esclarecer os sintomas. As técnicas tinham portanto o objetivo de trazer ‘a tona o material reprimido, que ao ser liberado, geraria o alívio dos sintomas.

A técnica inicial foi a Hipnose
Como alguns pacientes não eram hipnotizáveis substituiu-se pela técnica da Associação Livre, que ‘a semelhança da primeira, pretendia desencavar conteúdos inconscientes.

A técnica da associação livre
Consistia em que o paciente relatasse todos os pensamentos que passassem por sua mente, mesmo que fossem perturbadores e comumente repelidos.
A eficiência dessa técnica dependia do grau em que se produzissem ``descargas de quantidade de excitações´´ . Entretanto poucos pacientes eram capazes de fazer associações, que de fato fizessem emergir o conteúdo bloqueado, limitando assim, o efeito terapêutico da interpretação .
Entretanto, essa técnica levou ‘a descoberta de dois importantes fenômenos: a resistência e a transferência.

a) A resistência ou seja, a firme repressão de certas lembranças.
Freud concluiu que essas experiências esquecidas são o resultado de um processo de defesa, cuja função seria transformar idéias emocionalmente fortes em fracas, despojando-as da quantidade de energia com que estavam carregadas para proteger a pessoa de emoções dolorosas.

b) A transferência que consiste na evocação de uma atitude emocional intensa do paciente em relação ao analista que pode ser de forma hostil (transferência negativa) ou afetiva (transferência positiva).

Para Freud ambas estavam relacionadas uma vez que o processo de autodefesa implícito na resistência caminhava sempre de mãos dadas com a atitude negativa subjacente para com o analista, muitas vezes ficando encoberta pela boa vontade em cooperar e buscar ajuda. Por isso Freud passou a ver a transferência como a mais forte das resistências.

Por volta de 1910, Freud chama a atenção para a necessidade de alterar o foco do procedimento terapêutico para a descoberta e superação da resistência, ao invés de esclarecer os sintomas diretamente.

Entretanto... Freud não conseguiu desenvolver um método sistemático de trabalhar as resistências.

a) Não havia ordem no material colhido. Os analistas lidavam de forma não sistemática com o conteúdo trazido na sessão terapêutica, sem levar em conta sua profundidade e principalmente a maneira específica que o paciente se defende na terapia e em sua própria vida.

b) Condenando o hábito de certos analistas repreenderem o paciente quando ele mostrava resistência ao tratamento, muitos optavam pelo silêncio terapêutico, acreditando que a espera era inerente ao principio analítico de tentar compreender a resistência. O que em muitos casos levava o paciente a se sentir abandonado.

c) Com a crença de que haviam resistências insuperáveis, alguns analistas optavam em fixar data para o fim do tratamento quando este se estagnava. A idéia por trás dessa prática era que o paciente devia decidir-se antes de uma certa data a abandonar a resistência para ficar bom.

d) Embora Freud já houvesse alertado a respeito de que a interpretação do material inconsciente pudesse resvalar em uma hostilidade secreta, os analistas sentiam-se inseguros de examinar esse material, talvez porque também tivessem conteúdos inconscientes inadequadamente trabalhados em sua terapia pessoal. De modo que acabavam apenas por lidar com a transferência positiva e não a negativa.

e) Embora Freud tivesse claramente esclarecido o papel da satisfação sexual para a cura das neuroses a maioria dos analistas não conseguia lidar com isso de forma natural. Ficavam embaraçados, evitavam o assunto com receio de ficarem excitados ao discuti-lo. Enfim não colocavam ênfase na importância do paciente atingir a satisfação genital.

f) Ainda que em 1913, Freud tivesse reconhecido que a forma da expressão, ``o como´´ do comportamento era de importância analítica, a maior parte dos pacientes permanecia deitado sem tomar consciência da maneira como usava seu corpo para bloquear seus sentimentos.

Pois justamente num esforço para superar essas limitações técnicas é que Reich vem a desenvolver a Análise do Caráter.



2ª parte – AS sementes da Orgonomia na Análise do Caráter

À medida que as resistências eram estudadas de forma mais rigorosa, tornava-se evidente que cada paciente se defendia da exploração de seus sentimentos de um modo característico. Então, o estudo das resistências individuais foi se deslocando para o estudo dos padrões de resistência.

Embora Freud já houvesse postulado em um artigo em 1908 a idéia de que traços como organização excessiva, avareza, obstinação estariam relacionados a fixações da energia na fase anal e ainda Karl Abraham tenha feito descrições de traços em comum encontrados em fixações na fase oral e na fase genital, esses estudos limitavam-se a investigações de caráter individual. Ninguém antes de Reich havia tentado sistematicamente alterar a maneira típica de um paciente se comportar mediante a interpretação contínua do seu funcionamento defensivo. A caracterologia antes de Reich parecia ser uma mistura de avaliação moral e descrição teórica.


A caracterologia de Reich envolvia três pontos principais:

1º ponto:
uma técnica sistemática de interpretar atitudes de caráter a fim de fazer emergir emoções reprimidas subjacentes a elas: a análise sistemática das resistências.

2º ponto:
uma descrição sistemática de vários tipos diferentes de caráter e de situações conflitantes ocorridas na infância geradoras dessas atitudes de caráter.

3º ponto:
Uma formulação clara do objetivo da terapia baseada numa distinção econômico sexual entre saúde e comportamento neurótico.


Especificado o 1º ponto

As sementes da Orgonomia na pratica clínica da Analise do Caráter:

Reich foi o primeiro analista a introduzir um estudo exaustivo de justamente quais mecanismos corporais estavam envolvidos na dinâmica da repressão às emoções.

Quando Reich começou atuar nas tensões corporais, continuou simplesmente usando os métodos da Analise do Caráter. À semelhança do que fazia verbalmente com as atitudes defensivas de caráter do paciente, através da análise sistemática das resistências, também descrevia a ele, cuidadosamente sua expressão corporal ou ele mesmo a imitava, a fim de que o paciente se tornasse cada vez mais consciente da maneira como usava partes do seu corpo para bloquear suas emoções ou seja, defender-se.

a) Primeiro encorajava seus pacientes a intensificarem uma tensão particular de forma deliberada para que eles se conscientizassem da mesma.

b) Com a intensificação normalmente conseguia que o paciente liberasse uma forma aguda da emoção que havia sido reprimida pela tensão muscular crônica.
Somente então a tensão poderia ser adequadamente abandonada.

Na verdade o que Reich fazia era a Análise do Caráter no corpo.
Reich começou também empregar suas mãos diretamente sobre os corpos de seus pacientes para dissolver os nódulos de tensão muscular.
Havia uma relação óbvia entre a atitude corporal e a atitude emocional.


Especificando o 2º ponto:

a) Formas cronificadas do funcionamento emocional encontradas nas obras de Reich em especial na ¨Análise do Caráter¨ editada pela brasiliense e na ¨Função do Orgasmo¨ editada pela Summus.

1) A tendência em funcionar elevando-se acima dos demais – Funcionamento aristocrático,

2) A tendência em funcionar dissimulando sentimentos e ações – Funcionamento histérico,

3) A tendência em funcionar contendo a expansão emocional – Funcionamento compulsivo,

4) A tendência em funcionar competindo com os outros – Funcionamento fálico- narcisista,

5) A tendência em funcionar se queixando, reclamando, lamentando, sem tomar ações eficazes – Funcionamento masoquista,

6) A tendência em funcionar com amabilidade reativa, em situações destrutivas – Funcionamento passivo,

7) A tendência em funcionar de forma descontrolada – Funcionamento impulsivo,


b) Formas cronificadas do funcionamento emocional utilizadas pelos Reorganizadores Funcionais, não descritas de maneira específica por Reich.
Sugestão: ler também ¨Personalidade normal e patológica¨ de Jean Bergeret editado por Artes Médicas e ¨O corpo em Depressão ¨ de¨ de Alexander Lowen, editado pela Summus.

8) A tendência em funcionar emocionalmente de maneira dependente dos outros – Funcionamento oral,

9) A tendência em funcionar de maneira exigente consigo mesmo e com os outros desconsiderando as necessidades emocionais – Funcionamento rígido,

10) A tendência em funcionar negando aspectos da realidade emocional – Funcionamento esquizóide.



Especificando o 3º ponto: será incluído posteriormente.


















BIBLIOGRAFIA
Este texto foi baseado nas seguintes obras de Wilhelm Reich:
``A Função do Orgasmo´´- ed.brasiliense, 1975
``A Analise do Caráter´´- ed.Martins Fontes, 1989

E na obra de Sigmund Freud:
``A História do Movimento Psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos´´- Imago editora, 1996

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