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O Bloqueio Emocional e suas consequências

Autor: Marcia Helena de Oliveira - CRP 06/4674


O BLOQUEIO EMOCIONAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Autora: Marcia Helena de Oliveira
crp 4674/06

Nos anos iniciais da Psicanálise, Freud esteve bastante envolvido com o conceito de energia física.
Discípulo de Charcot (1885/86) e colaborador de Josef Breuer em seus estudos sobre a causa dos sintomas histéricos(1), Freud era induzido por sua formação biológica (medicina) a tentar traduzir em termos fisiológicos, suas descobertas sobre o funcionamento emocional. Por volta de 1894 chegou inclusive a visualizar essa energia física, denominada por ele de libido, como capaz de aumentar, diminuir e propagar-se na superfície do corpo como se fosse uma corrente elétrica.

Em 1934-35, através de uma série de experimentos realizados em Oslo, Noruega(2) , Wilhelm Reich, pela primeira vez nos anais da ciência, conseguiu que sensações subjetivas pudessem ser demonstradas por mensurações objetivas. O conceito de libido de Freud, foi então, conclusivamente provado como sendo uma energia real.

Em que consistiu o experimento?
Basicamente Reich construiu um aparelho que podia registrar a atividade elétrica da pele à semelhança dos aparelhos que mediam a atividade elétrica do cérebro e do coração.
A aparelhagem consistia num arranjo de dois eletrodos ligados a uma cadeia de tubos eletrônicos à vácuo que amplificavam quaisquer alterações do potencial na superfície da pele e as transmitia a um oscilógrafo, que tornava as variações elétricas visíveis sob a forma de traços de luz. O aparelho foi planejado de tal modo que os aumentos na diferença de potencial eram registrados no eletrograma sob a forma de movimentos ascendentes de traços de luz e as diminuições na diferença de potencial acarretavam movimentos descendentes de traços de luz. Percebeu-se que estímulos que fossem sentidos como agradáveis pelos sujeitos do experimento (carícias, sabores adocicados, etc) produziam movimento ascendente e que os estímulos que gerassem sensações desagradáveis (medo, angustia, aborrecimento) produziam movimento descendente.

Verificou-se ainda duas outras reações surpreendentes:

A Habituação:
Se um estímulo prazeroso fosse dado repetidamente, o traçado ascendente indicador de prazer tendia a aplainar-se como se o organismo se habituasse ao prazer e já não reagisse tanto a ele.

E um outro fenômeno que foi chamado de Desapontamento:
Ocorria quando o organismo era frequentemente submetido a um estímulo desagradável e após isto, se um estímulo prazeroso lhe fosse dado, a reação a ele não ocorria de imediato. O organismo demorava a reagir, como se estivesse acautelado e se recusasse a ser incitado.

Um pouco mais tarde 1936-37, Reich identificou o mesmo funcionamento da energia observado em organismos complexos como os seres humanos, em formas mais simples de vida : animais primitivos e formas vegetais. A essa energia presente nos organismos vivos, que independentemente da sua complexidade comporta-se da mesma forma, se move, aumenta, diminui, tal qual Freud já havia cogitado em 1894, Reich denominou de bioenergia(3).

O movimento da energia em nosso organismo, que Freud concebeu e Reich demonstrou, chamamos de sensação, e é através das sensações, que o organismo vivo interage com o seu ambiente. A sensação é portanto a ponte entre o organismo e o mundo externo.

Quando essa energia flui para o ambiente de forma natural, captamos o mundo de forma clara, entretanto quando o fluxo natural dessa energia é bloqueado, passa haver barreiras que podem dificultar ou até mesmo impedir o acesso direto ao que está fora de nós. Então passamos a não ter mais um contato direto, objetivo, real com o ambiente que nos cerca. À semelhança de um espelho, a imagem que vemos do mundo passa ser distorcida. Chamamos de organismos encouraçados quando essas barreiras ou couraças dificultam a expressão natural, criando assim formas secundárias, alternativas, possíveis da expressão do ser. O bloqueio da energia, ainda que seja um processo adaptativo ao ambiente, tem consequências limitadoras para o organismo, uma vez que parte de sua energia está comprometida na manutenção dessas barreiras ou couraças que se tornaram crônicas. O organismo se expressa menos, interage menos, existe no mundo aquém dos seus potenciais. Quanto mais barreiras, menos expressão do ser.

Mas afinal, porque esses bloqueios se formam?

Da nossa concepção no útero materno até o momento da nossa morte, estamos continuamente recebendo estímulos do ambiente e respondendo a eles. Mas é durante os primeiros anos de vida que somos mais sensíveis a esses estímulos e construímos nosso padrão de interação com o meio. Quando esses estímulos são de aceitação à expressão do nosso ser, permanecemos em fluxo, seguimos nos desenvolvendo naturalmente, e nos comunicando com o meio externo de forma direta. Mas quando essa forma natural de expressão não é aceita, nosso organismo desenvolve mecanismos para bloquear o seu fluxo natural de expressão no mundo. Na verdade esse é um mecanismo básico de sobrevivência, que garante que sejamos aceitos pelos adultos que cuidam de nós, uma vez que somos totalmente dependentes deles na nossa infância. Acontece que dependendo das situações que os geraram, esses bloqueios poderão se tornar crônicos, comprometendo nosso acesso direto ao mundo, pelo resto de nossas vidas.

Padrões cronificados de interação com o ambiente.

Na verdade existem tantos padrões cronificados de interação quantos organismos encouraçados existirem, uma vez que estes foram forjados nas situações inadequados que cada pessoa precisou passar em sua vida, principalmente na infância. A questão é que todos eles são limitadores da expressão do ser. Para supera-los, quer dizer para liberar a energia que sustenta a couraça, que os mantêm bloqueados, é necessário que consigamos sustentar o fluxo das sensações subjacentes que foram bloqueadas nessas ocasiões e que necessariamente emergirão por ocasião do desbloqueio.
Por exemplo, um organismo que precisou se preparar para bloquear a necessidade de prazer em sua vida (funcionamento masoquista), terá que sustentar o desejo, o sonho, o querer, bem como a possibilidade da perda disto tudo.
Um outro organismo que bloqueou o amor, a confiança, a entrega (funcionamento fálico narcisista), da mesma forma precisará sustentar o fluxo dessas sensações bem como a possibilidade de ser enganado, traído, rejeitado ou abandonado.
Um outro organismo ainda, que bloqueou suas necessidades emocionais, por medo de que elas o fragilizassem, prejudicando assim sua capacidade de realização , precisará encarar seus medos ou desejos, ainda que a princípio possa comprometer seu desempenho.

Muito já caminhamos desde os primórdios da Psicanálise. Ao longo de muitos anos de prática clínica, tenho visto e me emocionado com os pacientes que se libertaram de seus padrões cronificados limitadores, conquistando um nível maior de expressão de seus potenciais, realizando-se de forma mais plena. Entretanto venho me perguntando nos últimos anos, como seria a vida na Terra se os seres humanos, tivessem podido expressar-se livremente em uma cultura que não os houvesse bloqueado tanto? Qual seria verdadeiramente o real potencial da natureza humana? Que potenciais temos e ainda nem sequer conhecemos? Divido com todos vocês essa intrigante reflexão.


BIBLIOGRAFIA
(1) histeria – quadro clínico ideogênico, empiricamente descoberto, no qual pode haver o comprometimento de funções do corpo, sem que haja causa orgânica que o justifique)
fonte: Estudos Sobre A Histeria, vol II, cap III, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Imago editora

(2) Experimental Investigation of the Electrical Function of Sexuality and Anxiety, 1969 – tradução norte americana do original alemão publicado pela Sexpolverlag, Copenhague, 1937

(3)The Bion Experiments-on the Origem of Life, 1978 – tradução norte americana do original alemão publicado pela Sexpolverlag, Oslo, 1938.
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